terça-feira, junho 16, 2009

O país dos "voluntários convocados"

Anteontem, eu e meu pai estávamos viajando pela estrada rumo a Key West, no extremo sul da Flórida e a apenas 90 milhas de Cuba, e ouvindo a Radio Reloj (Radio Relógio) AM 860, uma emissora de Havana que pode ser claramente ouvida naquela região. O programa em questão era um noticiário, cujas reportagens eram exaustivamente repetidas, sobre ações do governo cubano nas mais diversas áreas. Até aí, nada demais, exceto por um termo que constava de uma das notícias lidas pela locutora:

"Devido à crise mundial, o governo inaugurou um programa de economia de energia através do controle do consumo com a ajuda de voluntários convocados (sic)."

Existem situações que são tão paradoxais que qualquer tentativa de eufemismo acaba resultando num ato falho que revela o absurdo dos fatos em questão de maneira acintosa. Eis as meias-verdades acima expostas:

1- A bem da verdade, a economia cubana está em crise desde o tempo da própria Revolução Cubana, quando Che Guevara foi nomeado Ministro do Açúcar, principal produto cubano, e conseguiu a façanha de quebrar o Ministério em apenas 3 meses. Portanto, Cuba está em crise desde então, enquanto que a crise mundial começou apenas em outubro do ano passado e já dá sinais de recuperação praticamente no mundo inteiro. Aliás, convém esclarecer que o tão famoso embargo econômico imposto a Cuba é exclusivo dos Estados Unidos, pois Cuba faz negócios com todo o resto do mundo.

2- O programa em questão não é de economia, e sim de racionamento de energia, com apagões propositais planejados pelo governo em todo o território cubano exceto no balneário de Varadero e na orla de Havana, onde ficam os hotéis internacionais, nos quais os cidadãos cubanos que não trabalham neles não podem nem entrar.

3- Um voluntário é, por definição, uma pessoa que faz algo porque quer fazê-lo, e não por convocação.

Segundo a novilíngua do governo cubano, pode-se dizer até que Cuba não é uma ditadura, mas apenas um regime de exceção – afinal de contas, democracia com exceção de liberdade é regime de exceção, não é mesmo?

terça-feira, maio 26, 2009

A quem interessa a hegemonia chinesa?

Texto extraído do newsletter de Joelmir Beting:

COISAS QUE NOS FALTAM


Medicina e mandarim, assuntos do dia.

Fernando Pimazoni, médico responsável pelo Instituto de Patologia de Botucatu (SP), conta que, "com mais de 30 anos de experiência e certa vivência e conhecimento da medicina dos EUA, não foi surpresa a notícia (SAÚDE DE PONTA ) de que nós estamos tratando pacientes americanos com a mesma qualidade e mais barato do que eles. A medicina em São Paulo é excelente, mas não é barata (quem tem coragem de não ter plano de saúde?), muito parecida estruturalmente com a dos EUA. Lá, o diferencial está na infra-estrutura mais organizada e regulamentada. O médico produz muito mais, é mais fácil trabalhar, não se perde tempo com besteiras, incrivelmente mais eficiente, tanto é que quase 40% das publicações médicas mundiais vêm dos EUA. Até hoje, com crise e tudo".

Eli Campos Perez, de Catalão (GO), ponderando que "negócio bom e bem feito é aquele em que os dois lados ganham e após se entenderem perfeitamente" sugere, para "fazermos bons negócios da China (NEGÓCIO DA CHINA ) com a dita cuja e tudo não ficar na mão de meia dúzia de privilegiados", incluir em todos os níveis escolares e educacionais o ensino do mandariam, "assim como é com o inglês e já foi com o francês e latim".
(25/05/2009)


A seguir, meus comentários:

Se o ensino do inglês nas escolas brasileiras, tanto públicas quanto privadas, já é uma porcaria mas pelo menos dá aos alunos uma noção elementar de uma língua que o próprio Planeta China usa para se comunicar internamente, imagine o ensino do mandarim, uma língua que não é nacional, pois nada mais é do que o dialeto de Pequim, não usa o alfabeto latino (só isso já daria um baita nó na cabeça da rapazeada) e é totalmente alheia à realidade cotidiana do povo brasileiro, ainda por cima com a professorada comuna enchendo a boca para falar que TODOS os cidadãos do Planeta China falam mandarim... Ora! Não sei se é mania de perseguição de minha parte, mas esse comentário a favor do ensino do bendito mandarim nas escolas brasileiras me parece típico daquela brasileirada boba que quer que os Estados Unidos se explodam e não vê a hora de o mundo passar a ser regido pela batuta da hegemonia chinesa, pois, afinal de contas, mal sabe essa laia que quando um país se torna uma potência hegemônica, ele exporta, ou pelo menos tenta exportar, o seu regime político, e essa gente sem cultura está achando tudo isso lindo pelo simples fato de que não tem a menor idéia do que é a ditadura chinesa.

Você que está na faixa etária dos 50 ou pelo menos 40 já deve ter percebido que, do pessoal da sua idade, as pessoas que sabem que a China é uma ditadura comparável à União Soviética (não são muitas) acham que o regime chinês é igualzinho a essa "ditamole" tupiniquim que você teve que aturar na sua juventude. Porém, a sua geração não chega nem perto da minha quando esta última enche a boca para apoiar a hegemonia chinesa pelo simples fato de que o pessoal da minha idade não vivenciou uma ditadura, por mais branda que a já citada "ditamole" tupiniquim tenha sido. Para piorar as coisas, eu conheço muita gente da minha idade que torce o nariz quando eu falo que não existe chinês (língua chinesa, no sentido nacional do termo), e sim, no máximo, um dialeto levemente predominante sobre os demais, nesse caso o mandarim, que só o é por ser a fala corrente da capital. Nessas horas, lembro-me de uma aula que tive numa escola de informática, já há 5 anos, em que um professor encheu a boca para me dizer que eu (e não ele) estava fora do mercado trabalho porque a língua inglesa, já há uns 20 anos (segundo ele), tornou-se insignificante no mundo, inclusive no mundo dos negócios. É mole?

Às vezes eu fico pensando se nasci no país certo, pois quando você, que hoje tem 50 ou 40 anos, tinha a minha idade, me parece que o povo brasileiro tinha uma certa cultura geral, enquanto que hoje, o pessoal da minha idade não sabe quase nada nem sequer sobre o próprio Brasil, e ainda enche a boca para falar que os americanos é que não têm cultura... Mal sabem eles que os americanos conhecem pelo menos a sua história e a sua realidade.

segunda-feira, maio 18, 2009

Cristóvam Buarque e sua "democracia sem parlamento"

Recentemente, o senador Cristóvam Buarque declarou, durante um discurso na tribuna do Senado, que deveria ser realizado um plebiscito para consultar a população sobre a continuação ou não da existência do Parlamento.

É importante ressaltar o fato de que Cristóvam questionou a utilidade não apenas do Senado, mas da Câmara dos Deputados também, pois ao usar a palavra "Parlamento", ele estava se referindo ao Congresso Nacional como um todo, ou seja, a ambas as casas legislativas.

No caso do Brasil, cujo parlamento federal é bicameral, caberia no máximo a discussão sobre a continuação ou não da existência do Senado, que é a câmara alta do parlamento brasileiro, pois o poder público federal precisa ter pelo menos a câmara baixa, ou seja, a Câmara dos Deputados, pois não há democracia sem os 3 Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.

Na verdade, ao contrário do que a grande maioria das pessoas pensa, o único dos 3 Poderes que constitui o governo propriamente dito é o Poder Executivo, cujo presidente, o vice e os ministros representam a coalização de partidos que está no poder. O Poder Judiciário é apartidário e independente tanto do Executivo quanto do Legislativo, e no poder público federal é composto pelo Supremo Tribunal Federal e demais tribunais superiores. Já o Poder Legislativo é justamente aquele em que a democracia se manifesta na prática, pois o parlamento, seja ele mono ou bicameral, possui representantes dos partidos tanto da situação quanto da oposição. Portanto, o fechamento do parlamento, além de eliminar um dos 3 Poderes, transformaria o Brasil automaticamente numa ditadura em que o presidente governaria por decreto. Nesse quadro institucional de apenas 2 Poderes, o presidente da República não encontraria nenhum empecilho para submeter o Poder Judiciário à sua vontade, eliminando sua independência e transformando-o numa mera extensão do Poder Executivo. A partir desse momento, o Estado brasileiro só manteria um Poder: o Executivo, ou seja, o próprio governo, monolítico e absoluto, cujo presidente mandaria nos juízes, não teria oposição nenhuma, nomearia interventores federais nos Estados e municípios, que obviamente também não mais teriam seus parlamentos e tribunais, e por fim, seria senhor da vida e da morte de 180 milhões de brasileiros.

Depois de tudo o que eu expliquei, eu lhe pergunto: você ainda quer esse plebiscito?