Aqui em Santos, mesmo após toda a propaganda feita sobre o perigo de caminhar sobre a ciclovia, inaugurada em dezembro de 2003, não são poucos os pedestres que ainda teimam em andar nela, causando riscos a si próprios e aos ciclistas, patinadores, skatistas e cadeirantes. Porém, se consultarmos o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), veremos que os patins e os skates não são considerados veículos, e sim apenas "brinquedos". Por incrível que pareça, nossa legislação de trânsito ainda ignora a indiscutível função veicular de tais objetos.
Na cidade de São Paulo, por exemplo, é cada vez mais comum o uso de patins por entregadores e office-boys em geral, devido à sua maior mobilidade em relação às bicicletas, estas sim consideradas veículos. Porém, a partir do momento em que patinadores e skatistas são considerados pedestres comuns, como punir, por exemplo, patinadores que atropelam pedestres? Tecnicamente, é impossível, pois pedestre não atropela pedestre. Mas o que fazer quando um dos pedestres calça um tipo especial de sapatos que o impulsionam a andar bem mais depressa do que os verdadeiros pedestres comuns? A confusão está armada.
Você já imaginou um boletim de ocorrência elaborado por policiais que estejam por dentro das normas de trânsito? Pedestre atropela pedestre na ciclovia. No mínimo, estranho, não é? Porém, se pensarmos bem, num país em que os "seqüestros-relâmpago" ainda são tipificados pelo Código Penal como meros roubos seguidos de extorsão, sem a caracterização do crime de seqüestro, por que esperar que o Código de Trânsito Brasileiro seja atualizado o quanto antes?
segunda-feira, outubro 23, 2006
sexta-feira, outubro 20, 2006
Quer conversar? Tome um táxi!
Não são poucas as pessoas que menosprezam integrantes de determinadas categorias profissionais por acharem que eles não têm informação nem cultura suficientes para que se desenvolva uma boa conversa. Ledo engano. Hoje, vou falar sobre a minha categoria predileta para conversar: os taxistas.
Como eu ainda não tenho carteira de motorista e preciso, freqüentemente, deslocar-me rapidamente da minha casa a certos lugares e vice-versa, sempre tomo um táxi. Uma coisa que qualquer usuário freqüente do serviço de táxi pode observar é o fato de que os taxistas, quando não estão conversando com seus colegas de praça, estão lendo. E eles lêem muito: jornais, a Bíblia, livros laicos etc. Quando não estão lendo algo, estão conversando; quando não estão conversando, estão lendo algo. Raríssimos são aqueles que não costumam fazer nem uma coisa nem outra, até porque deve-se levar em conta que, muitas das vezes, quando eles não estão fazendo nem uma coisa nem outra, estão cochilando. E mesmo assim, mais raros ainda são aqueles que só cochilam e nada mais.
Sempre que me aproximo de um táxi, o taxista destrava a porta do banco do carona, já falando algo e me cumprimentando em seguida. Após também cumprimentá-lo, puxo conversa sobre qualquer assunto e, quando percebo, já estamos conversando a vários minutos. O que me deixa mais admirado e, às vezes, confesso, surpreso, é o fato de que os taxistas estão sempre bem-informados, antenados que são ao mundo que os cerca. Muitos deles são capazes de opinar sobre os mais variados assuntos com total desembaraço e sem reles palpites. Raros são os taxistas adeptos do famigerado clichê Eu acho que, pois, apesar de suas escolaridades serem equivalentes à média nacional, eles sabem muito mais do que muitos catedráticos que eu conheci, os quais são exímios palpiteiros, isto é, pautam suas opiniões e teses sob meros achismos.
Já fiz corridas com inúmeros taxistas que poderiam, sem falso elogio, ser verdadeiros livres-docentes em badaladas universidades santistas, pois, mesmo quando eles não sabem algo, eles perguntam em vez de palpitar, e calam ao ouvir as respostas e os comentários dos passageiros, aceitando-os como válidos até prova em contrário, e não rechaçando-os com o rei na barriga da arrogância propedêutica da qual muitos professores se investem.
Os taxistas estão entre as minha categorias prediletas para um bom papo sobre - repito - qualquer assunto. Eles possuem a informação, o conhecimento, a cultura e a humildade necessários para conversar de igual para igual com qualquer freguês. Em outras palavras, eles são vendedores natos, pois vendem seu peixe, isto é, seu serviço, como poucas outras categorias o fazem.
Como eu ainda não tenho carteira de motorista e preciso, freqüentemente, deslocar-me rapidamente da minha casa a certos lugares e vice-versa, sempre tomo um táxi. Uma coisa que qualquer usuário freqüente do serviço de táxi pode observar é o fato de que os taxistas, quando não estão conversando com seus colegas de praça, estão lendo. E eles lêem muito: jornais, a Bíblia, livros laicos etc. Quando não estão lendo algo, estão conversando; quando não estão conversando, estão lendo algo. Raríssimos são aqueles que não costumam fazer nem uma coisa nem outra, até porque deve-se levar em conta que, muitas das vezes, quando eles não estão fazendo nem uma coisa nem outra, estão cochilando. E mesmo assim, mais raros ainda são aqueles que só cochilam e nada mais.
Sempre que me aproximo de um táxi, o taxista destrava a porta do banco do carona, já falando algo e me cumprimentando em seguida. Após também cumprimentá-lo, puxo conversa sobre qualquer assunto e, quando percebo, já estamos conversando a vários minutos. O que me deixa mais admirado e, às vezes, confesso, surpreso, é o fato de que os taxistas estão sempre bem-informados, antenados que são ao mundo que os cerca. Muitos deles são capazes de opinar sobre os mais variados assuntos com total desembaraço e sem reles palpites. Raros são os taxistas adeptos do famigerado clichê Eu acho que, pois, apesar de suas escolaridades serem equivalentes à média nacional, eles sabem muito mais do que muitos catedráticos que eu conheci, os quais são exímios palpiteiros, isto é, pautam suas opiniões e teses sob meros achismos.
Já fiz corridas com inúmeros taxistas que poderiam, sem falso elogio, ser verdadeiros livres-docentes em badaladas universidades santistas, pois, mesmo quando eles não sabem algo, eles perguntam em vez de palpitar, e calam ao ouvir as respostas e os comentários dos passageiros, aceitando-os como válidos até prova em contrário, e não rechaçando-os com o rei na barriga da arrogância propedêutica da qual muitos professores se investem.
Os taxistas estão entre as minha categorias prediletas para um bom papo sobre - repito - qualquer assunto. Eles possuem a informação, o conhecimento, a cultura e a humildade necessários para conversar de igual para igual com qualquer freguês. Em outras palavras, eles são vendedores natos, pois vendem seu peixe, isto é, seu serviço, como poucas outras categorias o fazem.
terça-feira, outubro 03, 2006
Ledo engano
Poucas horas depois de afirmar categoricamente que o segundo turno seria disputado entre Lula e um suposto triunvirato composto por Geraldo Alckmin, Cristóvam Buarque e Heloísa Helena, ouvi as declarações dela no rádio. Heloísa afirmou categoricamente que não apoiará nem Lula nem Alckmin e que nem ela nem nenhum outro político do PSOL poderá dizer publicamente em quem votará, exceto os militantes do partido. Heloísa afirmou que ambos representam o famigerado "modelo neoliberal", e que, portanto, nem ela nem o PSOL como um todo apoiarão nenhum dos dois. Já o caso de Cristóvam é igual ao do ex-fumante que tolera o tabagismo mas que jura jamais pôr um cigarro na boca de novo, isto é, seu antipetismo é menos forte que seus anseios por mudanças, logo, ele também não pregará o voto contra Lula.
Logo depois de ouvir tudo isso, pensei: como pude cair em tamanha cilada, armada por mim mesmo? Pensei que Heloísa Helena fosse se entregar à realpolitik. Ledo engano. Este foi o meu segundo arrependimento na minha relação com a política. O primeiro aconteceu justamente pela razão contrária, isto é, por pensar que o santista Vicente Cascione não se entegraria à realpolitik. Nas eleições municipais de 2004, votei nele para prefeito de Santos. Dois anos depois, em meados deste ano, atinei com o fato de que ele, que sempre foi um crítico acérrimo do PT, vendeu-se ao petismo, tornando-se vice-líder do governo Lula na Câmara dos Deputados. Mas o problema não é uma pessoa mudar de opinião, e sim ter uma opinião para cada ocasião, o que demonstra uma flexibilidade politiqueira que denota um caráter torto e relativista. Em termos ideológicos, pode-se dizer que Cascione é um esquizofrênico, pois seu partido sempre foi o "PVC - Partido Vicente Cascione".
Heloísa Helena é um fenômeno inédito na história republicana do Brasil. Sua única equivalente feminina em termos de ousadia foi a estadista imperial Princesa Isabel. Entretanto, o que difere as duas são as intenções finais dos projetos de cada uma: no caso da estadista, a liberdade dos brasileiros de todas as cores; no caso da comunista, a escravidão dos brasileiros de todas as classes. Eu, que cheguei a pensar que Heloísa tinha adquirido um pingo de racionalidade, perdi totalmente minhas esperanças. Errei. Errei por crer que todos mudam. Ledo engano. Há pessoas que nascem e morrem com os mais variados desvios de caráter. Há pessoas que nascem e morrem comunistas. Assim é o mundo cão da política. Quanto maior for a ilusão, maiores serão as trevas do desgosto. A cilada é mais vergonhosa quando é fruto de um ledo engano. Assim o foi Heloísa Helena: meu segundo ledo engano.
Logo depois de ouvir tudo isso, pensei: como pude cair em tamanha cilada, armada por mim mesmo? Pensei que Heloísa Helena fosse se entregar à realpolitik. Ledo engano. Este foi o meu segundo arrependimento na minha relação com a política. O primeiro aconteceu justamente pela razão contrária, isto é, por pensar que o santista Vicente Cascione não se entegraria à realpolitik. Nas eleições municipais de 2004, votei nele para prefeito de Santos. Dois anos depois, em meados deste ano, atinei com o fato de que ele, que sempre foi um crítico acérrimo do PT, vendeu-se ao petismo, tornando-se vice-líder do governo Lula na Câmara dos Deputados. Mas o problema não é uma pessoa mudar de opinião, e sim ter uma opinião para cada ocasião, o que demonstra uma flexibilidade politiqueira que denota um caráter torto e relativista. Em termos ideológicos, pode-se dizer que Cascione é um esquizofrênico, pois seu partido sempre foi o "PVC - Partido Vicente Cascione".
Heloísa Helena é um fenômeno inédito na história republicana do Brasil. Sua única equivalente feminina em termos de ousadia foi a estadista imperial Princesa Isabel. Entretanto, o que difere as duas são as intenções finais dos projetos de cada uma: no caso da estadista, a liberdade dos brasileiros de todas as cores; no caso da comunista, a escravidão dos brasileiros de todas as classes. Eu, que cheguei a pensar que Heloísa tinha adquirido um pingo de racionalidade, perdi totalmente minhas esperanças. Errei. Errei por crer que todos mudam. Ledo engano. Há pessoas que nascem e morrem com os mais variados desvios de caráter. Há pessoas que nascem e morrem comunistas. Assim é o mundo cão da política. Quanto maior for a ilusão, maiores serão as trevas do desgosto. A cilada é mais vergonhosa quando é fruto de um ledo engano. Assim o foi Heloísa Helena: meu segundo ledo engano.
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